"Múmia"

A cultura egípcia fascina as pessoas há milhares de anos. Existe um grande corpus de material que cataloga milênios de História e mito. Algumas dessas fontes ajudam a transmitir o misticismo e a filosofia nascidos no berço da civilização que é o Oriente Médio. Outras estão repletas dos vôos da fantasia que mantém os contadores de histórias ocupados até tarde da noite há tempos imemoriais. Com o lançamento do livro Múmia: a Ressureição os jogadores de RPG irão achar as fontes descritas inspiradoras em vários sentidos e poderão explorar as Terras da Fé, na busca de respostas para as suas dúvidas.
O cenário fascinante apresentado no livro Múmia: A Ressurreição é um complemento ao ambiente interligado do Mundo das Trevas, amplamente desenvolvido em várias publicações como Vampiro: A Máscara (principal fonte onde são descritos o mundo em que essas criaturas sobrenaturais povoam), Mago: A Ascensão e Lobisomem: O Apocalipse (que mostram outras perspectivas do mesmo cenário, com suas organizações secretas, conspirações, criaturas, desafios e poderes). Múmia: A Ressurreição apresenta regras e sugestões para criar aventuras no ambiente do Mundo das Trevas, mas dessa vez sob uma nova perspectiva - com milhares de anos de experiência.
O Mundo das Trevas é um cenário punk-gótico baseado em obras da literatura como as de Bram Stocker e de Anne Rice, só para citar alguns autores. Neste cenário, os vilões são a principal atração, com suas tragédias pessoais, sua luta eterna contra o mal interior e seus conflitos pela supremacia. Mas, apesar de tudo, eles ainda são vilões - anti-heróis, na melhor das hipóteses - e estão fadados a sucumbir ao mal e suas tentações.
Entretanto, nesse mundo também existem heróis. Parte deles são caçadores de vampiros - homens e mulheres assolados pela tragédia que decidiram revidar e eliminar os filhos da noite. Outros são metamorfos de vários tipos, lobisomens, homens-corvo e homens-gato, abençoados por Gaia, a Mãe Terra, engajados numa guerra desesperada para salvar o meio-ambiente. Alguns poucos são magos poderosos, manipuladores da realidade impulsionados pelo próprio orgulho ou que cultivam uma esperança vã de recriar o mundo à sua própria imagem.
Finalmente, alguns desses heróis são múmias, espíritos egípcios antigos, enviados pelos deuses mais sábios daquele panteão para restaurar o equilíbrio (ou Maat) na Terra. Esses espíritos não podem mais existir livremente no mundo, portanto, selecionam indivíduos prestes a falecer e infundem sua energia espiritual neles, prendendo a alma condenada e lhe concedendo uma segunda chance. Essa combinação de energia espiritual e matéria cria os imortais conhecidos como Amenti, homens e mulheres dotados de poderes advindos de um império que desapareceu há eras.
O patrono desses agentes do equilíbrio é o próprio deus egípcio Osíris, que despertou de seu longo sono no reino espiritual chamado Umbra, devido aos horrores que percorrem a noite do Mundo das Trevas, desencadeados por eventos ainda mais obscuros. Alguns dizem que se trata do início da Era de Aquário; outros afirmam ser o início do Apocalipse. Não importa quem está com a razão - o mundo encontra-se numa derrocada praticamente inevitável rumo ao abismo e, caso não encontre o equilíbrio necessário para impedir sua queda, nada poderá salvá-lo.
Essa é a tarefa dos Amenti. Como espíritos antigos, eles compreendem a necessidade da existência do mal e da escuridão, mas entendem com uma clareza ainda maior que a luz e a bondade é imprescindível nesse momento de dor e sofrimento.
A maioria deve imaginar uma múmia como um cadáver do Antigo Egito, envolto em ataduras, mas a múmia deste jogo nem se aproxima desse estereótipo. Os personagens são uma combinação do velho e do novo, um híbrido do antigo espírito egípcio e da alma dos condenados dos dias modernos, que receberam de Osíris uma missão que já está sendo cumprida há eras. Os heróis são guerreiros do equilíbrio, que buscam preservar a vida contra a ruína e o esquecimento que um mal antigo ameaça desencadear.
Mas como uma mulher ou homem moderno torna-se a força imortal da vontade de um antigo deus?
Por causa de um acidente infeliz ou de um ato de maldade, o personagem deste RPG morreu antes do tempo. Entretanto, por meio de um vínculo com uma alma antiga, ele retorna ao mundo dos vivos. Em troca de uma segunda chance, ele concorda em se tornar um agente da redenção em um mundo desesperado.
Esses protagonistas têm algo especial que atrai Osíris e seus seguidores, uma força ou discernimento que nunca se desenvolveu completamente durante sua primeira vida. Em resposta a esse potencial não realizado, um espírito egípcio ancestral cria um vínculo com o personagem e inicia uma cerimônia arcana para trazê-lo de volta à vida. Ao retornar ao mundo dos vivos, o herói se une a outros de sua casta, outras múmias - outros imortais - para restaurar o equilíbrio da justiça em um mundo que desliza cada vez mais rapidamente em direção à corrupção e à decadência.
Mesmo diante da morte, aceitar a imortalidade não é tão fácil quanto se pode imaginar. A transformação do personagem de “humano” para “espírito eterno” muda seu comportamento para sempre. A capacidade de compreensão do mundo se amplia dramaticamente e novos mistérios são revelados no processo. O mundo é um lugar sinistro, vítima de séculos de atrocidades. Criaturas sobrenaturais e mundanas fazem planos malignos para acelerar a espiral descendente da sociedade, para extinguir a chama da esperança e da inocência na humanidade.
Ao retornar à vida, o personagem é imbuído com o poder de resistir a essas forças. Ele recebeu uma segunda chance e a oportunidade de um novo começo.Na verdade, o tema geral de Múmia: A Ressurreição é a responsabilidade. Os mortais são dotados do poder de mudar o mundo a seu redor de inúmeros jeitos, mas, mesmo assim, eles gastam tempo demais desperdiçando oportunidades. Poucas pessoas têm a energia necessária para descobrir sua missão neste mundo e, quando ela surge, menos indivíduos ainda são capazes de reconhecê-la quando ela aparece.
Múmia e o Mundo das Trevas
Durante milhares de anos, os antigos egípcios aperfeiçoaram a arte de preservar os corpos dos mortos. A intenção deles era manter o corpo para a família do falecido. Após a morte, a alma do indivíduo ia para Duat, o outro mundo dos egípcios. Lá, na cidade espiritual de Amenti, Osíris governava os mortos. O deus Anúbis guiava os recém-chegados até os juízes do além para que pudessem decidir qual a recompensa do espírito por sua vida.
Quando era incorporado à cerimônia de mumificação, o Feitiço da Vida, elaborado por Osíris e sua esposa-irmã, Ísis, criava um elo eterno entre a alma e o cadáver. Embora permanecesse no outro mundo após sua morte, o espírito conseguia agora retornar através da Mortalha (que separa o mundo dos vivos do mundo espiritual), preenchendo sua carne morta com vida. Um serviço apropriado no reino subterrâneo de Amenti permitia à múmia reunir energia espiritual suficiente para retornar ao mundo dos vivos. Meses, até mesmo anos, podiam se passar, mas uma múmia sempre acabava retornando à vida, independente de quantas vezes ela fosse morta.
Os seguidores de Ísis e Osíris realizaram a cerimônia de ressurreição com um número pequeno de membros. No entanto, devido a um desentendimento entre Osíris e Ísis quando criaram o feitiço, as múmias antigas ficavam sutilmente defeituosas. Embora sua carne fosse quente e seus corações batessem, o toque da morte nunca as abandonava completamente. Apesar de terem sido preenchidas com a vida eterna, elas eram completamente estéreis. Os místicos encontravam nas múmias auras sombrias e o sangue delas, estranhamente, não possuía força vital.
Apesar de serem poucos, a raça dos imorredouros possuía inimigos formidáveis. Hórus, o filho de Osíris e o maior dos Imorredouros, liderou a maioria das múmias em uma cruzada para purificar o mundo de seu tio homicida, Set - servo de Apophis. Os fiéis Seguidores de Hórus, os Shemsu-heru, retornavam várias vezes do além para resistir ao mal de Set e dos venenosos filhos do deus sombrio.
Essas múmias combateram a corrupção de Set através dos milênios. Então, veio a Dja-akh, a tempestade fantasma, que destruiu o outro mundo. Nem mesmo os eternos Shemsu-heru conseguiram suportar a fúria da Dja-akh e muitos deles pereceram na destruição da grandiosa Amenti, o Reino de Areia Sombrio. Sem a sabedoria de Osíris, o deus da ressurreição, é possível que tudo se tivesse perdido.



